A Deusa: Satyajit Ray e o mito do Eterno Feminino

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A história das civilizações nos mostra que, desde os primeiros tempos do patriarcado, a mulher assumiu diferentes formas e representações. Da submissão de Eva, passando pela benevolência da Virgem Maria à transgressão ameaçadora das feiticeiras europeias, perpetua-se o mito do princípio feminino eterno – a Força Universal do Amor e da Morte, a Divina Mãe e Protetora, na qual o homem possui sua origem e o seu fim. Devi [A Deusa], do cineasta indiano Satyajit Ray, dialoga com este eterno e etéreo mistério feminino, fornecendo-nos um retrato, simbólico, cru e sutil, da condição da mulher sob os liames da obsessão religiosa.

Satyajit Ray imbuiu sua obra da verdade universal. Dentre as preocupações humanísticas das quais se ocupam seus filmes, estão a denúncia das desigualdades sociais imperantes em seu país e a reinvindicação pela liberdade feminina. Tais características consagraram-no como o maior realizador da Índia e um dos mais importantes da história do cinema do século 20. Lançado em 1960, A Deusa pertence à primeira fase de Satyajit Ray, marcada pela realização da Trilogia de Apu (1955-1959) e A Sala de Música (1958). Neste período inicial, Ray celebra o espírito humano, revestindo suas tragédias de otimismo e poesia. A Deusa é, no entanto, seu filme mais sombrio.

Na Bengala rural do século 19, acompanhamos a jovem de 16 anos Dayamoyee a partir do momento em que esta é surpreendida pela decisão do esposo, Umaprasad, de ir para a capital concluir os estudos. (Aqui vemos novamente a química dos atores Sharmila Tagore e Soumitra Chatterjee, o casal apaixonado e apaixonante de O Mundo de Apu.) A vida do jovem casal é alegrada pela presença do sobrinho Khoka, filho único da irmã de Umaprasad, Harasundaya (interpretada por Karuna Banerjee, a mãe sofredora de Apu nos filmes A Canção da Estrada e O Invencível). Ao caráter idealista de Umaprasad – representação da juventude moderna, interessada em libertar-se de velhos valores – contrapõem-se o conservadorismo e a rigidez moral de seu pai, Kalikinkar (Chhabi Biswas, de A Sala de Música), rico latifundiário devoto da deusa Kali e que nutre grande admiração pela nora virtuosa e recatada.

Certa noite, porém, a paz do lar é perturbada quando o velho Kalikinkar tem um sonho no qual acredita lhe ter sido revelado que Daya, sua nora, é, na verdade, a encarnação da Devi – Kali Ma, a Deusa-Mãe. Nesta sequência, na qual predominam elementos surrealistas, o rosto de Daya emerge do rosto da estátua de Kali. O homem desperta e, em lágrimas, prostra-se diante da nora – a Deusa encarnada. A adolescente, inocente e frágil, é levada ao altar da opulenta residência, onde é, a partir de então, adorada pela comunidade local.

Umaprasad retorna para casa e defronta-se com o rito realizado em torno da esposa. Cético, ele busca dissuadir o pai de tal ideia e convencê-lo de que é insanidade deixar-se levar por sonhos. É quando, diante de seus olhos, opera-se um milagre: um garoto moribundo é trazido aos pés de Daya e misteriosamente curado. A notícia se espalha, e camponeses, famélicos e doentes oriundos das mais recônditas regiões peregrinam em direção ao altar para receberem a bênção da Deusa e serem, finalmente, curados e libertos.

O culto ao Eterno Feminino

Para as audiências ocidentais, pouco familiarizadas aos elementos ritualísticos do hinduísmo, os diversos símbolos que permeiam a obra de Satyajit Ray podem, muitas vezes, passar despercebidos. O teor místico é somente apreendido em sua totalidade se compreendemos o real significado do culto à Deusa estabelecido nas antigas sociedades orientais: Kali é a mais misteriosa divindade das ordens religiosas indianas e a representação dos três aspectos do ato cósmico – criação, preservação e aniquilação. É a Senhora do Tempo, a Mãe Negra, associada à morte e à sexualidade1.

Em todas as civilizações, antigas e modernas, perpetuam-se os mitos femininos, que permeiam o ideário religioso – na mitologia cristã, Eva, a primeira mulher, foi concebida da costela de Adão no intuito de satisfazê-lo e, assim, libertá-lo da solidão; a produção artística – a virgem da literatura romântica, a femme fatale do cinema, com seu aspecto predatório e unhas assemelhando-se a garras felinas; a vida em sociedade – a mulher detém o divino dom da maternidade e aí reside seu destino.

Em sua obra O Segundo Sexo, a filósofa Simone de Beauvoir disserta acerca da construção do mito feminino e como este é a base ancestral das sociedades patriarcais: “O homem reencontra na mulher as estrelas brilhantes e a lua sonhadora, a luz do sol, a sombra das grutas; por outro lado, as flores selvagens das moitas, a rosa orgulhosa dos jardins são mulheres. Ninfas, dríades, sereias, ondinas, fadas habitam os campos, os bosques, os lagos, as charnecas. Não há nada mais arraigado no coração dos homens do que esse animismo. (…) O homem espera da posse da mulher mais do que a simples satisfação de um instinto; ela é o objeto privilegiado através do qual ele domina a Natureza2.”

Desumanizada e sem voz própria diante do poder patriarcal, Daya entrega-se ao terror e à loucura – mulher ou Deusa? – e hesita em fugir com o esposo na cega crença de que tal ato gerará perigosas consequências para o futuro de ambos. Entretanto, a tragédia os espera: Khoka, o sobrinho amado, adoece. A família dispensa os cuidados médicos, pois “a Deusa benevolente irá curá-lo.” Khoka é então levado à Daya, que, em seu horror, suplica silenciosamente pela misericórdia das forças supremas. Contudo, o menino morre em seus braços. Acusada de feitiçaria, Daya é perseguida. A cena final, que marca o último encontro de Umaprasad e a inocente esposa, é onírica: Daya emerge de uma luz branca, despenteada e com os grandes olhos borrados de Kohl – a tinta escura utilizada como cosmético pelas damas da antiguidade. “Eles irão me matar,” diz. Delirante, ela foge através dos campos floridos, partindo em busca de seu destino de mulher.

O roteiro de A Deusa é baseado no conto de mesmo nome do escritor Prabhat Khumar Mukhopadhyay, publicado em 1899 e que, por sua vez, acredita-se ter sido inspirado em um fato real ocorrido na comunidade rural de Bengala nos idos de 17903. Sob o olhar de Satyajit Ray, a narrativa fabular torna-se uma feroz crítica à manipulação psicológica exercida pela religião sobre a sociedade. Apesar das tentativas de boicote por parte dos tradicionalistas, à época de seu lançamento, A Deusa recebeu o Prêmio Nacional de Melhor Filme em Bengali e concorreu à Palma de Ouro no Festival de Cannes em 1962.

Assíduo observador dos costumes seu povo, Ray declarava-se um agnóstico: “Eu parei de ir ao Brahmo Samaj4 com quatorze ou quinze anos,” disse em entrevista à revista Cineaste, em 1982. “Não acredito na religião organizada de nenhuma forma. A religião deve ser apenas a um nível pessoal5.”

Belo, trágico e enigmático, A Deusa, quase 60 anos depois, ainda propicia inquietantes reflexões. É a arte em sua essência e magnitude; a mulher em sua evocação e força; a vida desvelada em sua universalidade – a crueldade e a compaixão. É a humanidade de Satyajit Ray que faz desta uma obra eterna do cinema.

Referências

  1. P.C. Jain e Daljeet. Kali: The Most Powerful Cosmic Female. Exotic India. Acesso em 12 de dezembro de 2017. Disponível em: http://www.exoticindia.com/article/goddess_kali/
  2. Simone de Beauvoir. O Segundo Sexo. Difusão Europeia do Livro. 4ª edição. São Paulo, 1970. Tradução de Sérgio Milliet. Pág. 196.
  3. Prabhat Khumar Mukhopadhyay. Devi. Extraído da antologia 14 Stories That Inspired Satyajit Ray, editado e traduzida por Bhaskar Chattopadhyay. Acesso em 11 de dezembro de 2017. Disponível em:
    https://harperbroadcast.com/2015/10/21/the-goddess-a-short-story-by-prabhat-kumar-mukhopadhyay-from-14-stories-that-inspired-satyajit-ray/
  4. Brahmo Samaj: Congregação de homens e mulheres devotos de Brahman, a suprema base espiritual sustentadora do universo. Disponivel aqui.
  5. Greg Klymkiv. Devi (The Goddess). Daily Film Dose. Acesso em 10 de dezembro de 2017. Disponível em:
    http://www.dailyfilmdose.com/2011/08/devi-goddess.html

Fotos: Reprodução


Sobre a autora

Rafaella Britto é professora, escritora e crítica de cinema com sede em São Paulo. Ela é co-fundadora e editora da Cine Suffragette, uma publicação multilingue em linha sobre a representação das mulheres no cinema. Ela também é editora do Império Retrô, um blog de jornalismo independente dedicado a explorar o diálogo entre arte e moda e tem colaborado com várias publicações on-line. Ela é apaixonada pela música, línguas, literatura e cinema de todo o mundo.